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Notícias/Policial

Crânio afundado, coração deslocado e casa sem portas: polícia revela detalhes da investigação sobre menino morto pelo pai em Viamão

Delegada afirma que mãe dificilmente não ouviu as agressões, diz que criança apresentava lesões brutais e detalha histórico de violência da família; mãe alega ser vítima de violência doméstica

Crânio afundado, coração deslocado e casa sem portas: polícia revela detalhes da investigação sobre menino morto pelo pai em Viamão
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A investigação sobre a morte do menino de 3 anos espancado pelo próprio pai em Viamão ganhou novos contornos após a prisão preventiva da mãe da criança e a revelação de detalhes inéditos sobre a violência sofrida pelo garoto. Conforme a delegada Luana Tamiozzo Medeiros, que conduz os trabalhos da Polícia Civil, as lesões encontradas na vítima demonstram um nível de brutalidade incompatível “apenas” com os socos admitidos pelo pai e reforçam a suspeita de que a mãe, na condição de garantidora da proteção do filho, não poderia desconhecer o que acontecia dentro da residência.

Segundo a delegada, uma médica que atendeu o menino, ouvida pelos investigadores, informou que a criança sofreu ferimentos de extrema gravidade. "O crânio chegou a ficar afundado. Ele foi tão agredido na região do tórax que o coração chegou a mudar de lugar, a se movimentar. A gente acredita que foram realmente agressões tanto com objeto quanto com socos, chutes, enfim, no geral", afirmou.

O laudo definitivo do Instituto-Geral de Perícias (IGP), que apontará oficialmente a causa da morte, ainda não foi concluído. Mesmo assim, o conjunto de provas reunido até o momento levou a Polícia Civil a alterar o enquadramento da investigação do caso para homicídio doloso duplamente qualificado e tortura. Somente com a conclusão do inquérito e indiciamento é que será definida, em definitivo, a tipificação do crime.

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A mãe da criança, presa preventivamente no início da tarde de quinta-feira, também passou a ser investigada pelos crimes. Conforme a delegada, o pedido de prisão não decorreu apenas da morte do menino, mas principalmente das informações apuradas ao longo da investigação sobre o histórico de violência vivido pela família.

"Quando começaram a vir informações sobre o histórico de violência dessa família, a gente percebeu que existia uma omissão da mãe. Num primeiro momento, imaginávamos que pudessem ter sido apenas socos, e que talvez ela realmente não tivesse ouvido. Mas depois ouvimos a médica que fez o primeiro atendimento e ela explicou que eram lesões muito brutais, que necessariamente causariam muita dor", relatou.

Essa conclusão foi reforçada durante o cumprimento do mandado de busca na residência onde a família morava. "Vimos que a casa praticamente não tem portas. Ela era dividida por cortinas. Então seria quase impossível que a mãe não ouvisse o que estava acontecendo", explicou.

Para a delegada, a situação encontrada no imóvel, somada aos relatos sobre agressões anteriores, fortaleceu a convicção de que a mulher deixou de agir para impedir o resultado. "Vendo o histórico familiar, de que essas lesões já acontecem há muitos anos, nos deu ainda mais convencimento de que essa mãe provavelmente era omissa. Ela foi omissa nas torturas que vinham acontecendo com os irmãos da vítima há muito tempo e também provavelmente foi omissa nesse homicídio. É o que chamamos de crime omissivo, pois ela tinha o dever jurídico de impedir aquele resultado”, justificou.

Violência pode ter ido além do relato do pai

Durante o interrogatório, o pai admitiu ter agredido o filho. No entanto, para a Polícia Civil, a versão apresentada por ele não explica toda a extensão dos ferimentos.

Embora nenhum objeto tenha sido apreendido durante as buscas, a investigação recebeu informações de que o homem utilizaria uma cinta para castigar os filhos. "Poderia ter sido utilizada a cinta neste caso, mas a gente acredita que tenha sido alguma coisa ainda mais contundente. Pela gravidade das lesões, entendemos que houve agressões tanto com objeto quanto com socos e chutes", afirmou a delegada.

Questionada se algumas lesões poderiam ser antigas, Luana explicou que essa hipótese ainda é analisada. Porém, como o próprio investigado assumiu ter provocado os ferimentos e não há confirmação de agressões imediatamente anteriores ao episódio, a principal linha de investigação aponta que as lesões fatais decorreram do espancamento ocorrido naquele domingo.

Casa simples, isolada e silenciosa

A residência onde a família vivia fica em Águas Claras, no interior de Viamão, em uma região caracterizada por estradas de chão, terrenos amplos e poucas casas. O imóvel é uma construção extremamente simples de madeira, localizada aos fundos de um terreno onde funciona um espaço com maquinários.

Quando a reportagem esteve no local, ainda havia roupas estendidas no varal. Desde o crime, segundo moradores, ninguém mais foi visto entrando ou saindo da residência. A tranquilidade da comunidade contrasta com a violência investigada pela Polícia Civil.

Uma empresária da região, que preferiu não ser identificada, contou que a família havia chegado havia pouco tempo. "Pareciam uma família tranquila, mas como eram novos por aqui, praticamente não tínhamos contato. Só víamos eles passando pela rua", relatou.

Segundo ela, o crime abalou profundamente a vizinhança. "A comunidade está em choque. É um lugar onde muita gente escolhe morar justamente pela tranquilidade. Ninguém imaginava uma coisa dessas", disse.

Apesar de morarem ao lado de uma igreja, moradores afirmam que nunca os viram frequentando atividades religiosas. "Só soubemos depois da repercussão que ele dizia ser missionário. Missionário de quê, a gente não sabe, para fazer uma crueldade dessas", desabafou.

A condição de missionário foi apresentada inicialmente pelo próprio investigado durante os primeiros levantamentos da polícia. No entanto, conforme Luana Medeiros, até agora nenhuma igreja confirmou qualquer vínculo institucional. "Isso ainda está bem estranho. Ele falou que seria missionário, mas nenhuma igreja confirma que ele fosse missionário. Pelo que identificamos, acreditamos que seja alguma religiosidade pessoal baseada na fé dele, mas sem ligação oficial com nenhuma denominação", disse.

A investigação também constatou que nenhum dos dois adultos possuía emprego. Segundo Luna, a residência chegou a ser cedida por pessoas sensibilizadas com a situação financeira da família. "Eles viviam em extrema pobreza", afirmou a delegada.

"Eles começaram pagando aluguel, mas depois, pelo que apuramos, a casa acabou sendo cedida por pessoas que tiveram pena deles por terem cinco filhos e não terem praticamente condições nem de comer", acrescentou.

Passagem por outros estados amplia investigação

Embora estivessem em Viamão havia cerca de sete meses, a Polícia Civil descobriu que a família já havia passado por outros estados brasileiros antes de chegar ao Rio Grande do Sul. Segundo a delegada, já foram expedidos ofícios para hospitais, Conselhos Tutelares e policiais civis de São Paulo e Santa Catarina, além de pedidos de informações ao consulado norte-americano.

"Nós estamos buscando o máximo de informações possível porque sabemos que, em algum momento, uma dessas crianças foi levada ao hospital com o fêmur fraturado. Na época disseram que ela havia caído, mas depois descobrimos que provavelmente estavam acobertando uma situação de violência", explicou.

A polícia também confirmou que, em outro momento, as crianças chegaram a ser retiradas da guarda da mãe por um Conselho Tutelar. "Pelo que sabemos, elas foram acolhidas e depois retornaram para a família. Ainda aguardamos toda essa documentação para compreender exatamente o que aconteceu", disse.

Na quinta-feira, o Ministério Público do Rio Grande do Sul informou ainda ter solicitado cooperação da Interpol para verificar a existência de eventuais antecedentes do pai nos Estados Unidos. Conforme a Polícia Civil, o inquérito policial também analisará se a conduta do Conselho Tutelar e a rede de proteção de Viamão colaboraram, de alguma forma, para o desfecho trágico.

Mãe diz que também sofria violência

Durante o interrogatório à Polícia Civil, a mulher negou participação direta nas agressões, mas confirmou aos investigadores que o companheiro agredia os filhos. Segundo a delegada, ela também afirmou ser vítima de violência doméstica.

"Ela confirma que o pai realmente agredia as crianças e também diz que sofria violência doméstica. Inclusive, ela foi interrogada, mas também ouvida na condição de vítima, porque existem fortes indícios dessa violência contra ela", ressaltou.

Apesar disso, para a Polícia Civil, os elementos reunidos indicam que ela tinha condições de impedir as agressões e permaneceu omissa. Os outros quatro filhos do casal permanecem acolhidos institucionalmente por determinação judicial.

Todos já foram encaminhados para exames físicos e psicológicos. "A gente encaminhou as crianças para perícia física e também para perícia psicológica. Além disso, pedimos medidas protetivas previstas na Lei Henry Borel para impedir que a mãe se aproxime delas até que a investigação seja concluída", informou.

Segundo a delegada, não há parentes no Brasil aptos a assumir a guarda das crianças. "Eles não têm familiares aqui. Os parentes estão nos Estados Unidos", relatou. Além da investigação do homicídio do menino de 3 anos, a Polícia Civil também apura possíveis episódios anteriores de tortura contra os irmãos.

Defesa fala em contexto de violência doméstica

Em nota, a defesa da mãe afirmou que ela está colaborando com as autoridades e permanece à disposição da Justiça. A mulher é representada pelos advogados Isabel Cochlar, Juliana Braun Martins e André von Berg.

Os advogados sustentam que a mulher vivia "em estado de grave vulnerabilidade no contexto de violência doméstica, física, emocional e espiritual" e defendem que as circunstâncias sejam apuradas tecnicamente, sem julgamentos antecipados.

A defesa informou ainda que não fará novos comentários em respeito à memória da criança e ao sigilo das investigações.

FONTE/CRÉDITOS: CORREIO DO POVO

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