O Centro de Oncologia Lydia Wong Ling, do Hospital Moinhos de Vento, marcou seus 10 anos nesta quinta-feira (20) com um Grand Round sobre o estágio atual do desenvolvimento das vacinas contra o câncer. O encontro, realizado no Hospital Moinhos de Vento, reuniu pesquisadoras da Universidade de Oxford e especialistas da instituição para discutir uma das frentes mais promissoras da oncologia, e abriu a série de ações que o hospital dedica à especialidade ao longo do mês.
A palestra foi conduzida pelas médicas Isabela Pedroza-Pacheco e Carol Sze Ki Leung, pesquisadoras e líderes de grupo do Center for Immuno-Oncology (CIO) da Universidade de Oxford. O tema ganhou projeção internacional depois que pesquisadores da universidade anunciaram o início dos testes em humanos e passaram a articular a participação do Brasil nesses ensaios clínicos. O mesmo grupo esteve no país em março para discutir parcerias com o Ministério da Saúde e instituições nacionais e firmou acordo para que o Brasil participe da produção da vacina e conduza o primeiro ensaio clínico contra o vírus Epstein-Barr, no mundo.
Diferentemente das vacinas tradicionais, que previnem infecções, as vacinas contra o câncer treinam o sistema imunológico a reconhecer e atacar células tumorais. As pesquisas avançam em duas frentes: as terapêuticas, voltadas a quem já tem a doença, e as preventivas, destinadas a pessoas com alto risco genético.
A moderação foi do superintendente médico do Hospital Moinhos de Vento, Luiz Antonio Nasi, e o debate contou com o chefe do Serviço de Genética e Medicina Genômica, Osvaldo Artigalás, e o chefe do Serviço de Oncologia da instituição, Sérgio Roithmann. "A presença da Universidade de Oxford neste diálogo vai muito além de um gesto protocolar. É uma maneira de encurtar o caminho entre as descobertas mundiais e o que chega ao paciente aqui. Queremos que o Brasil deixe de ser apenas receptor de novas tecnologias e passe a participar do desenvolvimento delas, em parceria com instituições nacionais e com o poder público", afirma Nasi.
Para Isabela Pedroza-Pacheco, a construção de parcerias internacionais é fundamental para avançar no desenvolvimento de vacinas e novas estratégias de tratamento contra o câncer. "Isso envolve uma extensa etapa de investigação com especialistas em diferentes áreas, incluindo a inteligência artificial. Primeiro, precisamos entender os cenários imunes dos pacientes e essas informações são levadas para modelos matemáticos e analisadas em Oxford para determinar os alvos terapêuticos nos tumores. É um esforço monumental, inclusive do ponto de vista financeiro", explica a pesquisadora.
De acordo com Carol Sze Ki Leung, pesquisadora e líder de grupo do CIO, a perspectiva de aproximar essa pesquisa dos pacientes representa um momento especialmente significativo após anos de investigação na área. "Estou muito animada. Trabalho com vacinas contra o câncer há mais de 16 anos e estamos cada vez mais perto de chegar aos pacientes. Ver todo esse conhecimento avançando para os ensaios clínicos e poder construir essas parcerias, inclusive com o Brasil, é um passo muito importante", destaca Carol.
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Uma década de transformação
Ao longo de dez anos, o Centro de Oncologia se consolidou como uma unidade completa de diagnóstico e tratamento, integrando patologia, imagem, medicina nuclear, imunoterapia, cirurgia robótica e radioterapia de alta precisão. Em 2026, o serviço atingiu uma marca histórica em que a imunoterapia tornou-se a classe de medicamento mais prescrita, superando a quimioterapia convencional.
Ao longo dessa trajetória, o Centro ampliou de forma consistente sua capacidade de atendimento e tratamento, acompanhando um número crescente de pacientes. No câncer de mama, os avanços também se refletem na maior agilidade entre o diagnóstico e o início do tratamento, resultado do programa de navegação de pacientes implantado em 2016.
O período também foi de investimento robusto em tecnologia. Só nos últimos dez anos, o hospital aportou mais de R$ 20 milhões em equipamentos nas áreas de radioterapia e quimioterapia, incluindo dois aceleradores lineares TrueBeam STX, que viabilizaram a expansão da radiocirurgia estereotáxica (SBRT) para tumores fora do crânio, como pulmão, fígado e rim. Também foi criado o programa de robótica, assim como o Laboratório de Patologia e Biologia Molecular.
"Dez anos atrás, boa parte do que fazemos hoje não existia na prática clínica. A cirurgia robótica virou padrão em praticamente 100% dos casos de câncer de próstata, os anticorpos droga-conjugados mudaram o tratamento do câncer de mama e de bexiga, e estamos em fase final de qualificação para iniciar o programa de células CAR-T", afirma o chefe do Serviço de Oncologia. "Mas o que mais me emociona é ver pacientes curados de doenças que antes eram intratáveis. A próxima década será marcada pelas vacinas terapêuticas e, principalmente, pelo diagnóstico precoce por exames de sangue capazes de rastrear vários tipos de tumor. É aí que está a nossa maior expectativa", destaca Roithmann.
Para dar conta da complexidade crescente, o centro adotou uma estratégia de ultraespecialização, com Tumor Boards organizados por sistemas e a criação de centros dedicados a patologias específicas, como o Centro de Câncer de Pulmão e o Centro de Mieloma, este último em parceria com a Clínica Mayo, nos Estados Unidos. Médicos da equipe realizaram fellowships na Johns Hopkins e na própria Mayo, trazendo ao Brasil linhas de pesquisa que hoje incluem o primeiro protocolo de vacinas experimentais para câncer de pulmão conduzido pela instituição.
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Conhecimento que chega ao SUS
A produção científica do centro alcança também o sistema público. Por meio do Proadi-SUS, o Hospital Moinhos de Vento desenvolveu 12 projetos que envolvem a temática oncológica, com aporte de R$ 129 milhões e 27 mil pacientes relacionados ao longo de quatro triênios, desde 2015. As linhas incluem a qualificação do programa de transplante de medula óssea do SUS, a investigação da prevalência do HPV no país, o rastreamento organizado do câncer do colo do útero por testagem molecular, a caracterização do perfil genômico dos cânceres de mama e próstata na população brasileira e a avaliação da vigilância ativa no câncer de próstata de baixo risco.
"O Moinhos de Vento é uma instituição filantrópica que se organizou para fazer três coisas ao mesmo tempo: cuidar com excelência, produzir conhecimento e devolver esse conhecimento ao sistema de saúde brasileiro", diz Mohamed Parrini, CEO do Hospital Moinhos de Vento. "Os dez anos do Centro de Oncologia mostram exatamente isso. Investimos em tecnologia e em pessoas, e o resultado reflete tanto no paciente que atendemos aqui quanto nos projetos que levam esse aprendizado para o SUS."
As atividades em celebração à década do Centro de Oncologia seguem ao longo de agosto.

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